Sistema Minié

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A arma Minié foi o resultado de uma revolução na indústria de armamento. Pela primeira vez os princípios da produção em série e da padronização permitiram a fabricação em grandes números de uma arma de precisão confiável, capaz de ser distribuída a todos os soldados e não apenas a unidades especializadas de atiradores.

Com a Minié, o início do combate de tiro, que antes era restrito a uns 200 metros, passou a ser feito em distâncias muito maiores. Assim, a alça de mira da espingarda brasileira do sistema e de fabricação belga era regulada para 825 metros e, de fato, o atirador tinha chances de atingir um alvo grande (como um batalhão em linha), a uns 500 metros de distância, sem maiores problemas.

Num teste de pontaria com as antigas armas lisas sobre um alvo de 1,8 x 3,0 metros, os atiradores – em condições ideais – só conseguiram uma média de 4,5% de acertos a 360 metros. Somente em uma distância menor, 90 metros, é que os disparos passaram a ter um efeito mais razoável: 75% de acertos. Por outro lado as novas armas Minié tinham uma precisão incontestavelmente superior: 95% de acertos a 90 metros e 53% a 360 m., ou seja, cerca de 12 vezes mais acertos nesta última distância do que as armas de cano liso.

Curiosamente, as melhorias não foram originárias de nenhum desenvolvimento técnico, pois a arma nada tinha de novo.

A idéia mãe do capitão Claude Etienne Minié, do exército francês, foi a adoção de um novo projétil, expansivo. Este tinha uma cavidade cônica na sua base, com um pequeno copo de cobre. O copo, com a explosão da carga, era jogado para dentro da cavidade cônica, fazendo com que a parte de trás da bala se expandisse e encaixasse nas raias. Isto tinha duas vantagens: impedia o escape de gases em torno do projétil, o que aumentava a eficiência da pólvora, e fazia girar a bala, dando-lhe estabilidade e precisão.

Bala minié

A arma logo gerou grande interesse, pois dispensava os complicados mecanismos usados para forçar a bala nas raias, como as Baker ou tige. Desta forma, quase todos os países copiaram a idéia do projétil, incluindo a Inglaterra e os Estados Unidos.

O Brasil, segundo informações do Ministro da Guerra, já teria empregado um certo número de armas do sistema (suficiente para armar uma companhia?) na campanha contra Rosas, onde foi usada em testes comparativos com a Dreyse e a tige. Sabemos também que havia mosquetões Miniés 17,5 mm e carabinas de calibre 18mm em serviço em 1860, mas não temos muitos dados sobre estes, a não ser que foram comprados em 1855 na Bélgica pelo Dr. Guilherme Schüch de Capanema. Este, naquele ano, recebeu ordens de "comprar 1,200 fuzis, 1.000 clavinas com baionetas, sabres, e 500 clavinas sem baionetas, sendo todo o armamento a Minié".

Mas a verdadeira explosão do uso da arma no Brasil viria em 1857, com a aquisição de diversas armas de um novo padrão, em calibre 14,8 mm:

Espingardas de 17, cano liso

2,000

Espingardas (à Minié) para Infantaria

3,000

Espingardas [na verdade, carabinas] (à Minié) para caçadores

3,000

Mosquetões (à Minié) para Artilharia

2,000

Mosquetões [na verdade, clavinas] (à Minié) para cavalalria

3,000

Pistolas (à Minié)

3,000

Apesar de ter sido feito uma encomenda direta aos fabricantes, sendo o primeiro equipamento padrão adotado para armas as forças armadas, há um pouco de confusão com esta arma. Por exemplo, em 1863 foi feita outra grande encomenda na Europa, de armas Minié, sendo estas conhecidas em alguns manuais como "Modelo 1864" (ano em que chegaram ao Brasil), mas não há diferença entre elas e as armas anteriormente compradas (a não ser pela alça, graduada em metros), de forma que preferimos não usar este termo.

Além da arma modelo 1857 (semelhante ao Modelo Espanhol e produzida por um consórcio na Bélgica), uma outra variedade da Minié foi usada no Brasil. Esta era a Enfield, basicamente o mesmo sistema, mas usando um projétil mais simples (depois foi também usado pelas Miniés): ao invés de usar um copo de cobre, um tarugo de madeira ou argila (e, mais tarde ainda, nenhum tarugo) era colocado na cavidade da bala. Mesmo assim a deformação necessária para o travamento nas raias era obtida pela força da detonação da carga. A arma belga foi comprada em 1857 e, não sabemos por que, a Enfield no ano seguinte, fato que poderia parecer não ter importância devido a sua semelhança entre os dois tipos, mas que viria a causar um imenso número de problemas.

Projétil Enfield

A alça de mira das primeiras Miniés, por exemplo, era regulada em braças (unidade de medida arcaica portuguesa, usada ate a adoção do sistema métrico no Brasil, em 1865), e a das Enfields em jardas (medida que nunca foi corrente no Brasil). Mas, pior do que isso, o calibre das duas armas tinha uma pequena diferença – 0,14 mm (quatorze décimos de milímetro). Apesar dessa diferença parecer ser mínima, especialmente considerando que eram de carregar pela boca, a bala das armas belgas não entrava nas Enfield e a bala de calibre menor, quando usada nas armas belgas, era pequena demais para obter um forçamento adequado nas raias, fazendo com que o projétil perdesse a estabilidade logo após sair do cano da arma, eliminando as vantagens da arma raiada.

Linha de atiradores brasileiros na Guerra do Paraguai. Semana Ilustrada.

Se houvesse um cuidadoso planejamento de distribuição das armas ou cuidados especiais com a munição, isso poderia ser considerado apenas como um inconveniente menor, mas a guerra do Paraguai viria a demonstrar os problemas de se usar armas equipamentos incompatíveis entre si em uma situação de combate. A solução adotada foi simples, apesar de gerar outros problemas: em 1866 ordenou-se que somente fosse distribuída munição de calibre inglês para o Exército, pois esta podia ser usada nas duas armas, mesmo com a redução da eficiência nas armas belgas. Ao mesmo tempo ordenou-se que as armas inglesas que fossem retornando para o Arsenal do Rio de Janeiro, fossem sendo brocadas para o calibre maior, fazendo com que existam algumas armas estranhas no país: Enfields com calibre Belga. Este "jeitinho brasileiro" seria de longa duração, continuando mesmo após a guerra do Paraguai: o Manual de Munições do Capitão Amaral, de 1874, por exemplo, só cita os projéteis de calibre 14,66 mm. Mas, naquele ano, a arma já estava obsoleta e saindo de serviço, apesar de uma obra de 1885 ainda mencionar o uso de Espingardas, Carabinas e Clavinas do calibre 14,8 mm e Mosquetões e pistolas do calibre 14,66 mm, tanto no Exército como na Milícia (Guarda Nacional).

Mesmo com este imenso problema da munição, as Minés foram uma excelente arma, dando uma imensa vantagem potencial ao Brasil em relação aos paraguaios, em sua maior parte equipados com antigas espingardas de pederneira, de curto alcance e pequena precisão. Infelizmente esta vantagem não foi aproveitada pela maior parte dos comandantes do período, ainda imbuídos do espírito do combate de choque, "corpo-a-corpo". Somente no final do conflito, sob o comando do Conde D’Eu é que o combate de tiroteio em alcances maiores passou a prevalecer.

As Miniés e Enfields representaram o sistema mais completo de armas portáteis usadas em toda a história do Brasil – cada Arma do serviço do Exército tinha um modelo especializado para seu uso:

Fuzileiros (Infantaria pesada)

Espingarda com baioneta triangular

Caçadores (Infantaria ligeira)

Carabina com sabre-baioneta (*)

Cavalaria

Clavinas e pistolas

Artilharia

Mosquetão com sabre-baioneta-iatagã

Menores de idade

Espingarda reduzida, com sabre-baioneta-iatagã

Série das armas Miniés, do Manual do Soldado de Infantaria, 1872.

(*) A carabina Minié também foi usada pelo Corpo de Infantaria de Marinha, o antecessor do Corpo de Fuzileiros Navais. Deve-se observar também que a carabina Enfield era provida de um sabre-baioneta-iatagã, ao invés do sabre-baioneta das belgas.

Nunca houve tanta preocupação com este tipo de detalhes – e nunca mais haveria. Uma das razões disso era o problema da munição: cada arma tinha um cartucho específico, o que certamente dificultava o trabalho de intendência e o treinamento padronizado das tropas.